
Ser desejante, assim fui criado, e nisso não consiste a minha culpa. Como todo que é semelhante a mim, decido o que quero, sem decidir, pois o que quero me é dado pelo longo e complexo processo em que torno-me pessoa, na dinâmica da formação do meu caráter e personalidade, o que terei como objeto do meu desejo, na verdade, vem antes que eu o deseje e só o desejo porque estou predisposto à isso. Primeiro se me apresenta o objeto, logo em seguida percebo-me irresistivelmente atraído pelo mesmo. Todos, sem exceção, passam a todo momento por isso. Eu de igual modo.
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Há algum tempo, acredito que em um dos meus passos adolescentes rumo ao amadurecimento, e como fruto do mesmo, decidi que os objetos de minhas paixões seriam os mais simples possíveis. Aqueles não tão condicionados às forças externas, e que dependessem menos de outras tantas variáveis. Desisti de um dia Ter dinheiro ao ponto de sobrar, de ser um profissional bem sucedido, ou de Ter um dos carros maravilhosos namorados por mim na Quadro rodas.
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Elegi então, a menina dos meus olhos, o que dentre todas as demais coisas sensíveis era a mais preciosa pra mim. Elegi “os meus relacionamentos”. Não falo nem das pessoas em si, porque muitas dessas entram e saem da minha vida sem necessariamente tornarem-se objeto do meu amor, mas até com essas, e por isso falo de relações, pretendo cultivar uma relação, mesmo que breve, com o máximo do que ela pode oferecer. Quando falo de relacionamentos me refiro a como decidir tocar as pessoas.
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Decidi, então, como fruto dessa primeira decisão, que não queria mais uma maneira qualquer de me relacionar com quem quer que fosse, queria a maneira correta, se elas eram de fato tudo o que eu queria, então meu desejo era o de fazer isso de forma impecável. Me vi diante de uma situação. Que tipo de relações eu construiria, quais critérios e normas aplicaria a esse encontro para dar a ele a qualidade almejada. Não precisei pensar muito, não poderia Ter escolhido outra maneira, escolhi a de Jesus, meu Mestre e Amigo. Observei-o e o observo atentamente desde então; tento apreender seus ensinamentos e seus gestos apesar da minha permanente insuficiência para fazê-lo, continuo tentando imitá-lo.
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Percebi que se quisesse imitá-lo mesmo, todas elas precisariam ser Relações puras, até onde for possível para homens a pureza. Relações não-egoístas, pois visam antes do meu o bem de outrem; não digo desinteressadas porque pra mim o desinteresse é para as relações entre os anjos e deuses, seres perfeitos e completos, que de nada precisam para tornarem-se melhores, nós no entanto, precisaremos sempre do que o outro tem a oferecer nessa relação. Relações profundas, mesmo que breves. Apaixonadas, mesmo que diante de mim esteja um estranho. Encontros onde minha presença seja percebida, e onde a outra pessoa perceba que também foi por mim percebida. Relevantes mesmo que pouco eu tenha a oferecer a esse alguém. Sinceras mesmo que a minha timidez me convide a fingir ser outro alguém.
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Construi pra mim, à partir disso, um ideal de amizade (Do que passo a falar à partir de agora). Ideal que logo percebi ser o de tantos outros, pois ouvia da boca de muitos o mesmo esperado quando pensavam suas amizades. Confiança, Respeito, Carinho, frutos de um Amor Puro e Sincero, que dá as condições necessárias ao outro para me tolerar e caminhar ao meu lado em todos os momentos. Alguém em que de fato eu pudesse confiar segredos; segredos secretos como devem ser os segredos, aqueles que eu jamais poderia contar a alguém, mas me sinto a vontade pra com esse compartilhar, aquele que mostra quem sou de fato, um encontro que não estamos acostumados a Ter na maior parte das nossas relações.
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Quanta dor e lágrimas agora, ao perceber que realidades tão desejadas por mim para as minhas relações, pra muitos são meras construções retóricas, apenas teorias sobre o amor e a amizade. Para esses a compreensão de ideal está muito mais próximo de utopia do que de meta a ser alcançada. E o que se diz sobre as relações de amizade, não são de fato o que se espera delas. Verdades tão bonitas e desejadas foram maculadas por nossa consciência marcada pela culpa. Culpa até do pecado que ainda não cometemos, culpa de sentir como sentimos e de desejar, mesmo sabendo ser essa a nossa natureza. Consciência de muitos, que enquanto falo de Desejo substitui de forma involuntária e leviana a palavra por outras que sempre a acompanham, mesmo não tendo qualquer relação entre si, a aproximam de palavras com sentidos imorais. Falar de desejos e paixões pra muitos é o mesmo que falar de carne e sexo. Não me entendam errado.
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Falo do desejo de estar perto de outra pessoa, e de como isso exerce poderosa influência sobre mim. Não apenas o estar ali, mas tocá-lo de uma forma especial, ir um pouco além do que ele costumava ser tocado. Falar com sinceridade, toda ela. Falar de emoções sem pudor ou sentimentos de culpa. Contar meus pensamentos sem o medo de que se instaure imediatamente sobre mim o julgamento da qualidade deles. Ir além dos limites impostos por uma sociedade de prática machista, de consciência moralista e com forte tendência a sexualizar os gestos mais puros. Falar de sexo e ir além dele, pois há lugares na alma humana muito mais íntimos e impenetráveis, nos quais precisamos do auxílio do outro, mas não o encontramos, pois não há quem ouse chegar aqui.
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Esse é o objeto do meu desejo para as minhas relações, pois é assim que noto meu Mestre lidando com aqueles que cruzaram seu caminho. Mas como vivê-lo com esse peso todo, da aparente impureza contida em relações autênticas entre os seres-humanos? Como ser amigo de alguém ao ponto de tornar-me irmão como me inspira a palavra de Deus, ou seja, assumindo o mesmo sangue e a mesma carne como sendo minha. Entrelaçando-me à sua existência ao ponto de me sentir responsável pelo seu bem estar mais do que me sinto pelo meu. Como tornar-me isso de alguém se o limite que impuseram para as minhas relações não chegam nem perto disso?
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Me sinto assim há algum tempo, mas algumas coisas que me ocorreram nos últimos dias me fizeram sentir-me assim, desiludido. Ontem, assisti pela décima vez a primeira parte de uma das histórias mais envolventes e emocionantes das que eu conheço, e enquanto assistia, como sempre fiquei chocado com uma amizade.
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Trata-se de Frodo Bolseiro e Samwise Gangi, uma das amizades mais lindas das histórias que li, mas é “engraçado”, pois sempre que assisto com alguém esse filme como da última vez, nos encontros mais emocionantes desses dois grandes amigos as piadas são inevitáveis e o amor que um nutre pelo outro é transformado por quem vê em mera atração sexual. Eles se olham nos olhos, se abraçam e juram fidelidade ao outro, falam dos sentimentos, se abraçam novamente, choram mais do que riem, dividem o alimento e as dores da caminhada, e caminham juntos por toda a jornada que apenas um deles precisaria percorrer. Em um momento da história, Frodo decidi seguir sozinho, não era justo dividir um fardo tão pesado com aqueles que amava. Pega o seu barquinho e poe-se a remar, Sam olha da margem e pede pra ir junto, Frodo não quer sacrificar o amigo e prossegue decidido, no mesmo instante, sem exitar, Sam igualmente motivado continua a andar para dentro do rio, nesse momento o fato de não saber nadar é apenas um detalhe pra ele, e ele segue caminhando em direção ao barco até submergir totalmente e se afogar. Entrega sua vida, não pela vida do amigo, mas pela simples possibilidade de poder acompanhá-lo em sua jornada. Estar junto dele. Frodo faz a volta imediatamente, o traz para dentro do barco, os dois se abraçam novamente, choram e seguem juntos.
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Quando o filme terminou por volta das 4:00 da manhã, senti muita vontade de ler sobre outra amizade, a de Davi e Jonâtas, e corri pra I Samuel, capítulo 18, pra lembrar-me de uma das amizades mais profundas das narradas pela bíblia, segui ávido em minha leitura até alcançar o primeiro capítulo de II Samuel, onde Davi se pronuncia quanto à morte de seu precioso amigo, dizendo: “Como os valentes caíram no combate! Jonâtas, sua morte rasgou-me o coração! Como sofro por você, Jonâtas meu irmão! Como eu lhe queria bem! Para mim, o seu amor era mais caro do que o amor das mulheres!” Ao reler essa declaração de amor, lembrei-me com tristeza de uma palestra ministrada por um pesquisador do antigo testamento na UERJ há dois anos atrás, afirmando que depois de muitas pesquisas havia descoberto a primeira relação homossexual corroborada pelas Sagradas Escrituras, o casal seria Davi e Jonâtas. Que tristeza é estar diante da nossa incapacidade de olhar com pureza o que é puro. Tratar como sagrado o que de fato é sagrado.
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Cultivamos mentiras no lugar de verdades e as difundimos em nome de morais diversas e valores supremos, que em nada se assemelham ao que penso ser o intencionado por Deus para as nossas relações. Na verdade os limites que impomos às nossas amizades só fazem menção a uma visão corrompida da qualidade das relações humanas e do potencial que temos para a pureza. Olhamos as relações mais profundas, como as mais perigosas e propensas ao erro, enquanto as superficiais são tidas como as mais seguras e acima de qualquer má interpretação. A pressão é tão grande que acabo permitindo que o possivel julgamento me impeça de viver a Amizade como poderia e deveria. Uma dessas mentiras-verdades, é a afirmação preconceituosa de que homens e mulheres não possuem os requisitos necessários para serem amigos, não falo de colegas, falo do conceito de amizade que defendi até aqui. Duas pessoas totalmente comprometidas com a caminhada do outro ao ponto de transformarem dois caminhos em apenas um. Ao ponto de se entregarem ou se jogarem nas águas sem mesmo saber nadar, já que a força que os impele não avalia as condições básicas de sobrevivência, nem os limites impostos pelo comumemente aceito para as nossas relações. Essa afirmação como tantas outras práticas são naturalmente incorporadas à nossa maneira de nos relacionarmos. Tudo agindo na formação de relações cada vez mais superficiais e insuficientes para suprir a falta que temos da Alteridade.
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Eu quero algo diferente para as minhas relações, quero encontros relevantes, e a possibilidade sempre aberta de ir além sem sentir-me culpado por isso, sem temer acusação ou exposição pública após confessar um pecado, sem o medo de dizer a ele que o amo, e beijá-lo, sem o medo de revelar o desejo que tenho de apenas estar perto, de chorar junto e declarar descaradamente meu Amor e minha admiração. Seja ele ou ela. Meu amigo querido, minha amiga querida. Deixar que Éros deixe de ser conceito e passe a ser força motriz de minhas relações.
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Eros como força vital que nos arranca contra a vontade de onde estamos, nos move, e por vezes arremesa, em direção ao outro. Sem distinguir classe, gênero, etnia ou outras diferenciações secundárias que gostamos de priorizar, sem mensurar as possiblidades de nos ferirmos ao passarmos das fronteiras pré-estabelecidas por nós mesmos para o bem estar das relações. Uma paixão grandiosa que não precisa ser refreada ou extinta, pois é desejo natural, desejo que não representa o mal em si, apenas a potencialidade humana para suprir as carências do seu próximo e ser suprido por ele. Utilizo a palavra Éros, tratando a amizade como uma relação também erótica, já que se dá através dos sentidos como as demais. Erótica sem o sentido lascivo, apenas o que indica que se trata de experiências sensoriais. Amizade exige olhar, abraço, afago, ombro pra chorar e presença, e essa última não pode ser substituída por nenhuma outra, a presença é essencial, e estar presente exije corpo, não distante, mas bem próximo. Por isso a uso sem pudor, pois pra mim as subcategorias a que condicionamos a palavra amor não o definem corretamente, já que se tratam apenas de uma forma a que recorremos para organizar as nossas prioridades. Também a utilizo pra mostrar como os amores não podem ser medidos e julgados com os critérios que usamos. Chamamos de Ágape, Éros e Phileo, e suas variáveis, e atribuímos importâncias diferentes a cada uma dessas categorias, hierarquizamos as relações e o sentimento produzido por cada uma delas. E sou sincero quando digo que por mais que me esforce, não entendo nada disso. Pra mim Amor é Amor. Eu, inspirado por ele, devo o mesmo a todos, não há priorizações entre os meus amores da terra (apesar de muitas vezes eu abrir mão de um em detrimento de outro), há um amor apenas sobre todos, que é o do meu Paizinho Querido por mim, que me constrange (impulsiona) a amar todos. Sem distinção, sem acepção.
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A todo instante elementos próprios de uma definição de amor são utilizados em uma categoria de relacionamento diferente da determinada. Já fui o amigo da minha esposa, desejei ardentemente abraçar uma amiga e quis estar diante de Jesus, fisicamente deitar em seu colo e como amigo conversarmos. Ou seja, as compreensões, não apenas se entrelaçam, mas se perpassam e tornam-se uma. Os desdobramentos do amor não podem ser categorizados, mas sim, experimentados. Já amei alguém incondicionalmente, mas também já exigi de alguns amores a retribuição pelo meu sentimento. Amor é Amor, com todas as muitas características que recebe. E pede o mesmo comprometimento e aprofundamento dos que por ele são tocados.
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E quando isso acontece, e por ele alguém é tocado, esse alguém deve vinvenciá-lo sem culpa, o manifestando por palavras e gestos, com o corpo e alma, respondendo coerentemente aos sentimentos. Escrevo, porque acredito no potencial de aprofundamento entre as relações humanas, amizades sinceras e puras, onde nossas mazelas do passado, as marcas de uma sexualidade confusa e/ou qualquer imposição externa, não nos impeça de nos comprometermos com o outro sem culpa, sem medo.
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Espero em minha caminhada construir (reconhecer) umas poucas amizades assim.
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“Tudo é puro para o puros, mas nada é puro para os impuros e descrentes, porque a mente e a consciência deles estão corrompidas” (Tito 1.15)